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A voz heroica nas margens. Potencial político e terapêutico dos relatos de "si-mesma"

Romão, Marianna Protázio
A operação estrutural pela qual as mulheres, como diferenças do padrão masculino e heroico, foram representadas negativamente na cultura reside no cerne da fundação da democracia ocidental, com consequências éticas, políticas e psicológicas que repercutem até os dias atuais. As lutas sociais que ganharam relevo a partir dos movimentos políticos em busca de reconhecimento dos direitos das minorias e superação de inequidades vem resultando em políticas de inclusão que não são suficientes para sanar a crise de representação de tais subjetividades plurais no marco da contemporaneidade. Desta forma, estas existências minoritárias não são aceitas como pertencentes às comunidades homogeneizadas e suas diferenças acabam por ser estigmatizadas e marginalizadas. Assim, de modo a pleitear visibilidade no terreno das representações culturais, propõe-se através deste estudo resgatar o constructo do heroísmo grego apropriado indevidamente pelos códigos morais da Modernidade como modelo ideal de subjetividade e expor os potenciais de sujeição que tal padrão exerce sobre representações de heroísmo minoritárias. O conceito de subjetividade, por sua rigidez, unicidade e fixação normativa, é aqui substituído pelo do devir-minoritário, como variável ao padrão majoritário de sujeito, que em seu itinerário deve passar primeiro pelo devir-mulher. O enfoque do estudo recorre, portanto, àquelas representações do heroísmo feminino das margens, por sua fama de“terrível”, representadas pelas heroínas clássicas Cassandra, Medeia e Electra. O objetivo central é o de cartografar a emergência de devires-minoritários, alçando suas diferenças à condição de positividade, lançando um olhar sobre a violência que incide sobre suas existências e, por último, destacar o processo pelo qual tais injustiças históricas podem ser reparadas na representação do heroísmo feminino nas margens do discurso hegemônico pela literatura contemporânea. O corpus eleito para esta pesquisa foram as tragédias Agamêmnon e Coéforas, ambas de Ésquilo, e Medeia de Eurípides; bem como reescrituras destas heroínas à luz da contemporaneidade, em obras da literatura igualmente nascidas de sociedades em transição democrática e marcadas pela experiência do ditador político, quais sejam Cassandra e Medea de Christa Wolf, Gota d'Água de Chico Buarque e Paulo Pontes, e Molora de Yaël Farber. A reflexão crítica durante a análise das obras é estruturada a partir dos eixos da diferenciação/singularização versus pertencimento comunitário, pelos quais o processo de relato de si das heroínas poderá ser debatido do ponto de vista ético, político e psicológico. Por meio da“análise do discurso”e da “cartografia analítica”foi possível mapear lugares-sujeito e agenciamentos de expressão e conteúdo em três territórios específicos: a voz, o corpo e o vínculo. Os resultados apontam para diferenças fundamentais, nas tragédias e obras de literatura, entre a forma de heroísmo exercido por estas protagonistas e o modelo heroico do poder, individualidade, dominação, defensor e conquistador de territórios, mortalidade, verticalidade e a transcendência pela morte que é reproduzido como modelo de homem moderno. Por outro lado, o heroísmo feminino se expressa por meio de narrativas de potência, inclinação, relacionalidade, miscigenação, estrangeria, corporeidade, pathos e humanidade, antecedendo o nascimento do novo que aportam à comunidade. O estudo conclui que as repercussões éticas e políticas de representações heróicas femininas, diferentemente do modelo de heroísmo homérico, permitem repensar novos modos de fazer política que acenam para a aliança entre os vários atores sociais, numa ética viva, que não se deixa capturar pela rigidez de códigos morais vigentes, que não violenta o outro e que é itinerante. A nível psicológico, os devires-minoritários regidos por tal ética logram despossuir-se do “eu” como categoria fixa e aproximar-se de um “si-mesmo” reconhecedor de seus limites e vulnerabilidades e, logo, mais inclusivos., The structural operation by which women have been presented in literature in negative terms has its roots in the origins of occidental democracy, whose ethical, political and psychological consequences are still present nowadays. The struggles disclosed through political movements have conquered the right to socially include minoritarian individuals, but they have ultimately been unable to overcome the crisis of representation of said groups in the framework of contemporaneity. As a result, their differences end up being stigmatized and marginalized. With the aim of gaining visibility in the field of cultural representation, this study proposes to retrieve the Greek hero construct, which the morals of modernity have unduly appropriated as an ideal model of subjectivity, in order to display its potential of subjection applied over minoritarian heroic representations. As an ally, the notion of becoming-minoritarian helps to identify variants of the average subject of enunciation, always preceded by the becoming-woman process. Accordingly, this analysis resorts to representations of “terrible” marginal female heroic figures embodied in classical heroines such as Cassandra, Medea and Electra. Its main objective is to map the emergence of the becoming-minoritarian, allowing the intrinsic differences of these figures to be read as positive for a plural community. It ultimately aims at highlighting historical injustices and traumas to be redressed in contemporary representations of minoritarian female heroism. The selected sources are The Libation Bearers and Agamemnon’s tragedies, both by Aeschylus, as well as other contemporary works, such as Cassandra and Medea, by Christa Wolf, Gota d’Água, by Chico Buarque and Paulo Pontes, and Molora, by Yaël Farber. The analysis focused on the axis of differentiation and singularization paralleled to community belonging, allows for the heroines’ self-narratives to be read from the point of view of ethics, politics, and psychology. The results show how female protagonists in comparison to heroic patterns exert heroism. Instead of speaking about power, individuality, domination, verticality, and transcendence through death, female heroism is expressed through narratives of intensity, inclination, relationality, hybridism, corporality, pathos and humanity. This study concludes that vary the Homeric heroes allows to represent new modes of doing politics based on living ethics. On a psychological level, these results favor an approach to an inclusive feminine self which acknowledges its limits and vulnerabilities.
Repository: TDR: Tesis Doctorales en Red